Elipse Clínica Multidisciplinar

Brincar é Coisa Séria

Beatriz Guimarães Otero Lavoura
Psicóloga/ Psicoterapeuta Junguiana


Arquimedes de Siracusa, um grego prodígio que foi matemático, físico, engenheiro, inventor e astrônomo e que influenciou gênios como Galileu Galilei e Isaac Newton, afirmou que “brincar é condição fundamental para ser sério”. Com essa frase inicio essa conversa para defender a seriedade e a importância do brincar para o desenvolvimento da criança.

Mais do que um prazer e uma diversão, o brincar é um direito da criança. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e dos Direitos da Criança (1959) conferem à criança direito ao lazer e ampla oportunidade para brincar e se divertir. Um pouco mais recente, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – 1990) também determina o direito a brincar, praticar esportes e se divertir.

Não só juridicamente o brincar é levado tão a sério a ponto de ser uma lei da qual a criança tem direito, mas também muitos teóricos enfatizaram em suas obras a importância do lúdico para o desenvolvimento infantil.

Para Piaget “a atividade lúdica é o berço das atividades intelectuais da criança, sendo por isso, indispensável à prática educativa”. Brincadeiras criativas constroem a base do mundo psíquico. Habilidades como: aprender, criar, planejar, solucionar problemas, auto-refletir, entre outras, estão relacionadas ao ato de brincar e favorecem o desenvolvimento cognitivo. Vygotsky conceitua o brincar como uma oportunidade para as interações, que permite que a criança se movimente, se conheça, experimente, sinta, se descubra, descubra o outro e o mundo, explore e crie, desenvolvendo assim todas as suas potencialidades.

A brincadeira não seria apenas uma atividade simbólica que envolve a fantasia, imaginação e criatividade, mas também se baseia em regras de comportamento e conduta, o que faz com que a criança internalize valores e princípios que direcionarão seu modo de agir e de pensar. Já para Winnicott “conquanto seja fácil perceber que as crianças brincam por prazer, é muito difícil para as pessoas verem que as crianças brincam para dominar a angústia, controlar idéias ou impulsos que conduzem à angústia se não forem dominados”. Ou seja, o brincar permite que a criança aprenda a tolerar frustrações, canalizar a agressividade e conhecer, reconhecer, discriminar e aceitar sentimentos e emoções.

Em resumo, através do brincar a criança aprende sobre o mundo que a cerca, sobre regras e limites, sobre cooperação, liderança, competição, além de testar suas habilidades físicas como pular, correr, girar, cair, ganhar e perder. Também desenvolve sua capacidade cognitiva, envolvendo a aprendizagem da linguagem e habilidade motora. Ainda estimula a compreensão dos sentimentos e emoções como prazeres e desprazeres, passando pelo lidar com a raiva, tristeza, medo, angústia, ansiedade e frustração.

Dito isto, convido à atual reflexão sobre o equilíbrio entre as modernidades e tecnologias de um lado e as brincadeiras tradicionais de outro.

Hoje em dia praticamente em todas as casas existe pelo menos uma televisão e em sua grande maioria também podemos encontrar computadores e celulares. Passa a ser muito comum as crianças e adolescentes desejarem cada vez mais brinquedos com controle remoto em que só precisam apertar um único botão e ficar olhando o brinquedo, computador, vídeo game, celular, tablet, etc ao invés de participar da brincadeira.

Para a geração que cresceu brincando de pega-pega, amarelinha, queimada e tantas outras brincadeiras ao ar livre, é difícil entender o prazer em assistir um vídeo no youtube de uma pessoa abrindo um brinquedo e brincando com ele, ao invés de ela mesma brincar com seus brinquedos. Também não é fácil compreender a escolha da criança em passar horas jogando/conversando com pessoas através de um aparelho, ao invés de descer no prédio e jogar bola com os amigos. A tecnologia priva a criança da interação social e do contato real com as pessoas.

Esses são os brinquedos da vida moderna. E não tem como negá-los à criança, até porque fazem parte do mundo de hoje e da forma como ela interage, se relaciona e se comunica. Mas é de extrema importância que os adultos a estimulem a também brincar de esconde-esconde, lego, bonecas, carrinhos, fazer desenhos, usar tintas, massinhas e argila.

As novas tecnologias utilizadas em excesso limitam o desenvolvimento infantil saudável, desencorajando as crianças a vivenciarem o espaço criativo. Elas já trazem as imagens prontas e a criança vai deixando de imaginar e usar a fantasia, a criatividade e a espontaneidade que já vimos como são importantes. A exploração sensorial e imaginativa que a brincadeira propõe é o que irá estimular e transformar a criança em um adulto criativo e preparado para lidar com mundo que o cerca.

Lógico que são inegáveis os benefícios da tecnologia e o quanto essa nova geração aprende tudo muito mais rápido do que a anterior. Mas o intuito deste texto é fazer um resgate da brincadeira tradicional para que ela tenha sua importância reconhecida e não se perca em meio a tanta demanda virtual. O equilíbrio é sempre o melhor caminho. Por tudo isso, agora vamos brincar do que?

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